Mudar as regras do jogo durante a partida não é inteligente

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Mesmo com vários anos de experiência, envolvimento com programas relacionados a parcerias e certificações, falar sobre Apple é algo delicado. Esta é uma das poucas empresas que consegue reverter um resultado da noite para o dia. Ser imparcial, é difícil.

Em junho deste ano participei da WWDC 2014 – um evento promovido pela Apple aos desenvolvedores da sua plataforma – na oportunidade tive o prazer de conhecer pessoalmente vários colegas brasileiros e alguns ícones internacionais. Evento impecável na organização, afinal lidar com mais de 6 mil pessoas em um único espaço não é tarefa fácil, ainda mais quando se tem a obrigação de fazer com que todos se sintam especiais – convenhamos, US$ 1.500 não é nada barato. A Samsung marcou seu evento para desenvolvedores na mesma data da WWDC e apenas alguns metros do Moscone. Engenheiros da Samsung e Intel participaram, diversos brindes distribuidos, alimentação completa e a distribuição de um Gear 2 a todos os presentes com um custo de apenas US$ 45 de inscrição (e com desconto, ainda por cima).

Voltando à WWDC, muitos desenvolvedores foram surpreendidos com uma nova linguagem de programação, até então totalmente desconhecida, e comemoraram como se fosse um gol do seu time de coração. Entretanto, analisando com um pouco mais de calma, percebemos que a Apple havia acabado de jogar no lixo todo um mercado e conhecimento formado em torno da Objective-C – a terceira linguagem mais popular conforme o ranking de junho da Tiobe. Desenvolvedores seniors foram rebaixados a estagiários de Swift com a justificativa de que a Objective-C era ultrapassada para as novas tecnologias. Até aí concordo, a criação e surgimento de uma nova linguagem era inevitável para se alcançar benefícios a médios e longos prazos, mas a forma com que foi anunciada foi péssima para o cenário de questionamentos que rondam a empresa.

O pilar central sustentado pela Apple aos desenvolvedores foi de que as duas linguagens permaneceriam e seriam complementares. Será? Prestar suporte e manutenção simultânea é algo trabalhoso, sem falar na “gambiarra” que existirá por trás no sistema para que elas continuem coexistindo. Tudo o que foi apresentado ainda é muito superficial para defendermos com unhas e dentes.

Dizer que, com a morte de Steve Jobs a Apple perdeu sua criatividade e força de inovação, ainda é muito precipitado. Se voltarmos um pouco no tempo, antes do lançamento do iPad, o mercado também cobrava algo inovador da Apple e – mesmo com o anúncio “atrasado” – tudo caiu no esquecimento. Entretanto é nítido como os traços do CEO Tim Cook começam a sobrepor a cultura da empresa formatada e liderada por Jobs. Se isso é bom ou ruim, só o tempo vai nos contar. Continuar dizendo à imprensa de que nada mudou é algo infantil por parte da Apple – forças de negociação, mudança na cadeia de valor e inovação em produtos será a verdadeira forma de botar um ponto final nesta história e mostrar ao mundo que a empresa ainda representa esse imenso grupo de loucos e desajustados que pensam diferente.

Publicado em: Revista +macmais [edição 98]

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